UMA ENSOLARADA MANHÃ DE DOMINGO
Sinceramente, não sei por que perco meu tempo olhando para as ondas com essa melancolia um tanto forçada de domingo. A vida acontece é nos cantos, nas conversas de beira de mar, no jeito de um par de namorados se aninhar sob a sombra de um coqueiro mirrado, como esses dois que me chamaram a atenção, ali na Praia dos Artistas, em Salvador. Janeiro, 1986. O sol já apertava, e a areia, fina e amarela, parecia guardar o calor de todo o ano passado, esse ano de Sarney e planos econômicos que mais parecem piada de mau gosto.
Débora e César, a cena. Ela, morena dos olhos verdes que pareciam refletir o Atlântico todo, alta, com um jeito de quem mede os passos para não tropeçar na própria beleza. Tinha os cabelos ondulados presos num rabo de cavalo despretensioso, e as pernas bonitas esticadas na toalha; os seios, pequenos, davam-lhe um ar de quem ainda está descobrindo o mundo, sem a pressa de quem já se cansou de tudo. Ele, César, era o exato oposto no tom da pele, negro de um negrume elegante, magrelo, alto, com a cabeleira crespa a desafiar a gravidade e a brisa.
Conversavam com a seriedade quase cômica dos 20 anos, essa idade em que o futuro é uma névoa densa e fascinante, cheia de monstros e tesouros. O assunto parecia ser a universidade, o medo bom da faculdade nova, ele talvez em Engenharia, ela em Letras, essa mania de querer entender o mundo de formas tão diversas. César gesticulava, as mãos finas no ar, desenhando o que devia ser o traçado do seu destino; Débora, a ouvi-lo, tinha no olhar a doçura e a dúvida de quem sabe que a vida a dois é uma equação de incógnitas infinitas.
O marulho era a trilha sonora perfeita para as suas incertezas. Casamento, disse César, e a palavra, assim solta no ar salgado, pareceu pesada demais para a leveza de janeiro. Débora sorriu de lado, um sorriso que era metade promessa, metade escárnio. Como pode um jovem, com a vida inteira para ser estragada por ele mesmo, querer logo a ordem, a rotina, o tal do “felizes para sempre”? É uma ingenuidade bonita, eu sei, a prova de que a esperança, mesmo em tempos de João Durval, ainda resiste.
O assunto, inevitavelmente, escorregou para a religião, essa velha âncora que ora salva, ora afunda. César, com aquele fervor que só os recém-saídos da adolescência possuem, falava da fé, talvez de algum grupo de jovens que prometia a salvação e a felicidade imediata. Débora, mais cética ou apenas mais observadora, parecia preferir a fé nos fatos, no toque da areia, na cor do mar – um panteísmo simples, de quem confia mais na natureza do que nos dogmas dos homens.
Ele insistia, imagino, no certo e no errado, nessa dualidade que a juventude tanto ama; ela, com seus olhos verdes de sereia, devia sussurrar sobre a complexidade das coisas, sobre o silêncio de Deus no barulho da vida. Era o choque de dois mundos, o dele, estruturado e ardente, o dela, fluido e irônico. Mas o que importava mesmo, o que a crônica precisa reter, não era o que diziam, e sim o modo como se olhavam, essa cumplicidade terna que é a essência de todo namoro na praia.
Essa Bahia de 1986, com sua brisa morna e seus coqueiros, parecia não se importar com Sarney, com planos econômicos ou com o futuro. O futuro era ali, agora, na pequena bolha de sol e areia que Débora e César criaram. Um futuro feito de beijos roubados, de promessas esquecidas e de inícios; de primeiras aulas, de primeiras brigas, de primeiras traições ao idealismo juvenil.
Eu os invejo um pouco, confesso. Essa coragem de planejar a vida sabendo tão pouco dela. Essa beleza luminosa, essa certeza de que o sol de amanhã será igual ao de hoje. Olho para os dois uma última vez, e o cheiro do mar me traz a velha e boa certeza: A vida, no fundo, é apenas uma linda conversa de domingo que a gente insiste em chamar de destino.
Paulo César....
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