Domingo de Luz e Poesia
O domingo chegou com aquele jeito preguiçoso de quem não tem pressa de ser segunda-feira. A luz entra pela janela como um convite antigo, dourada e suave, trazendo no seu colo o cheiro de café fresco e pão de queijo. Sento na varanda, observo as folhas das árvores dançando com o vento, e de repente, sem aviso, a saudade chega. Não aquela que dói, mas a que aquece, como um abraço de avó.
Lembro-me dos anos 80, quando os domingos eram feitos de calças rasgadas de tanto correr, de gritaria na rua até o último fio de sol. Não havia Wi-Fi, mas tínhamos o sinal da TV Manchete para nos reunir em frente ao *fmtv*. A Emília, com seus trapalhadas, era nossa heroína de pano, e o rinoceronte Quindim parecia mais real que os vizinhos. Na prateleira, fitas VHS acumulavam poeira, gravadas com cuidado para não perder o He-Man.
A casa da vovó era o centro do universo. Almoço com arroz amarelo, feijão que demorou a panela de pressão para ficar no ponto, e a sobremesa era sempre um conflito: brigadeiro ou pudim? Enquanto os adultos cochilavam no sofá, nós, crianças, inventávamos mundos com Legos espalhados pelo chão, transformando a sala em castelos ou naves espaciais. O rádio tocava Roberto Carlos, e alguém sempre dizia: “Essa música é a nossa época!”. Não entendíamos, mas achávamos bonita a melancolia deles.
Os fins de tarde tinham gosto de mungunzá e cheiro de terra molhada. Jogávamos bola até o sol se cansar, e as mães gritavam nomes da janela como um coral desencontrado. “Pedro, hora do banho!”, “Mariana, vem ajudar a tirar a mesa!”. E a gente respondia “só mais cinco minutos!”, que podiam virar cinquenta. Não tínhamos relógio, só a certeza de que a infância era infinita.
Hoje, o celular vibra, as notificações piscam, e o mundo cabe na palma da mão. Mas nenhum app traz o sabor da goiabada caseira, o medo divertido do Bozo, ou a magia de esperar uma semana inteira pelo próximo episódio da sua série favorita. Faz falta a paciência do tempo, a graça das coisas simples.
O domingo segue, devagar. A saudade, agora, virou companhia. Sorrio, pensando que talvez a infância dos anos 80 nunca tenha ido embora — só se escondeu em cheiros, canções e cantos de pássaros que ainda cantam as mesmas histórias. E enquanto o café esfria, fecho os olhos. Por um instante, sou criança de novo, e o mundo cabe inteiro no meu quintal.