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domingo, 28 de setembro de 2025

UMA ENSOLARADA MANHÃ DE DOMINGO...


UMA ENSOLARADA MANHÃ DE DOMINGO

 Sinceramente, não sei por que perco meu tempo olhando para as ondas com essa melancolia um tanto forçada de domingo. A vida acontece é nos cantos, nas conversas de beira de mar, no jeito de um par de namorados se aninhar sob a sombra de um coqueiro mirrado, como esses dois que me chamaram a atenção, ali na Praia dos Artistas, em Salvador. Janeiro, 1986. O sol já apertava, e a areia, fina e amarela, parecia guardar o calor de todo o ano passado, esse ano de Sarney e planos econômicos que mais parecem piada de mau gosto.

Débora e César, a cena. Ela, morena dos olhos verdes que pareciam refletir o Atlântico todo, alta, com um jeito de quem mede os passos para não tropeçar na própria beleza. Tinha os cabelos ondulados presos num rabo de cavalo despretensioso, e as pernas bonitas esticadas na toalha; os seios, pequenos, davam-lhe um ar de quem ainda está descobrindo o mundo, sem a pressa de quem já se cansou de tudo. Ele, César, era o exato oposto no tom da pele, negro de um negrume elegante, magrelo, alto, com a cabeleira crespa a desafiar a gravidade e a brisa.

Conversavam com a seriedade quase cômica dos 20 anos, essa idade em que o futuro é uma névoa densa e fascinante, cheia de monstros e tesouros. O assunto parecia ser a universidade, o medo bom da faculdade nova, ele talvez em Engenharia, ela em Letras, essa mania de querer entender o mundo de formas tão diversas. César gesticulava, as mãos finas no ar, desenhando o que devia ser o traçado do seu destino; Débora, a ouvi-lo, tinha no olhar a doçura e a dúvida de quem sabe que a vida a dois é uma equação de incógnitas infinitas.

O marulho era a trilha sonora perfeita para as suas incertezas. Casamento, disse César, e a palavra, assim solta no ar salgado, pareceu pesada demais para a leveza de janeiro. Débora sorriu de lado, um sorriso que era metade promessa, metade escárnio. Como pode um jovem, com a vida inteira para ser estragada por ele mesmo, querer logo a ordem, a rotina, o tal do “felizes para sempre”? É uma ingenuidade bonita, eu sei, a prova de que a esperança, mesmo em tempos de João Durval, ainda resiste.

O assunto, inevitavelmente, escorregou para a religião, essa velha âncora que ora salva, ora afunda. César, com aquele fervor que só os recém-saídos da adolescência possuem, falava da fé, talvez de algum grupo de jovens que prometia a salvação e a felicidade imediata. Débora, mais cética ou apenas mais observadora, parecia preferir a fé nos fatos, no toque da areia, na cor do mar – um panteísmo simples, de quem confia mais na natureza do que nos dogmas dos homens.

Ele insistia, imagino, no certo e no errado, nessa dualidade que a juventude tanto ama; ela, com seus olhos verdes de sereia, devia sussurrar sobre a complexidade das coisas, sobre o silêncio de Deus no barulho da vida. Era o choque de dois mundos, o dele, estruturado e ardente, o dela, fluido e irônico. Mas o que importava mesmo, o que a crônica precisa reter, não era o que diziam, e sim o modo como se olhavam, essa cumplicidade terna que é a essência de todo namoro na praia.

Essa Bahia de 1986, com sua brisa morna e seus coqueiros, parecia não se importar com Sarney, com planos econômicos ou com o futuro. O futuro era ali, agora, na pequena bolha de sol e areia que Débora e César criaram. Um futuro feito de beijos roubados, de promessas esquecidas e de inícios; de primeiras aulas, de primeiras brigas, de primeiras traições ao idealismo juvenil.

Eu os invejo um pouco, confesso. Essa coragem de planejar a vida sabendo tão pouco dela. Essa beleza luminosa, essa certeza de que o sol de amanhã será igual ao de hoje. Olho para os dois uma última vez, e o cheiro do mar me traz a velha e boa certeza: A vida, no fundo, é apenas uma linda conversa de domingo que a gente insiste em chamar de destino.

Paulo César....

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