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quarta-feira, 23 de julho de 2025

A GRANDE MARCHA PARA LUGAR NENHUM...

 A grande marcha para lugar nenhum

por Paulo Oliveira

Eles marcham. Oh, como marcham! Os filhos da civilização ocidental, eretos em seus tênis de solado grosso e indignação líquida, desfilam pelas avenidas da História como se fossem protagonistas de um espetáculo cósmico. Eles gritam por liberdade enquanto se acorrentam ao algoritmo. Celebram a razão ao som de mantras lunares e se perdem nos labirintos de luzes psicodélicas, grafites ritualísticos e certezas de silicone. Estamos assistindo à decadência ocidental não como tragédia, mas como espetáculo de variedades – uma mistura de circo astrológico, polarização patológica e fast food espiritual. A derrocada é pop, colorida, viral. E ninguém quer sair do palco.

Comecemos pelo palco esotérico, onde se ergue um novo panteão para substituir os deuses mortos da fé racional. Não mais Atenas ou Jerusalém, mas Ayahuasca e astrologia de aplicativo. Não mais Santo Agostinho ou Descartes, mas gurus de Instagram com turbantes comprados na Amazon e olhos marejados de autoajuda. O cidadão médio da Nova Roma – que agora se parece mais com um café orgânico do Brooklyn do que com qualquer capital imperial – rejeita a metafísica clássica e abraça uma ontologia líquida, onde o “eu” se dissolve em energias, cristais e vibrações de quinta dimensão. O problema é que esse "eu" pós-moderno, saturado de signos, não encontra repouso nem redenção, apenas curtidas e likes. E se a verdade for relativa, tudo passa a ser permitido – inclusive a desintegração do próprio Ocidente.

Mas não se pense que essa nova espiritualidade brotou de um vácuo. Oh, não! Ela floresce como erva daninha sobre os escombros da razão iluminista. A ciência, antes farol, tornou-se burocracia. A universidade, outrora templo do saber, virou mercado de diplomas e trincheira ideológica. O saber técnico sobrevive, claro – ainda fabricamos foguetes, drones e algoritmos que nos espionam com eficiência quase divina – mas o saber sobre o sentido, sobre a beleza, sobre o bem, esse... foi jogado no lixo reciclável da cultura pop. E enquanto cientistas engolem grilos em nome da sustentabilidade, o cidadão comum procura consolo nos mapas astrais.

E a política? Ah, a política... a arena gloriosa onde atenienses discutiam o destino da pólis transformou-se num circo polarizado, um reality show de gladiadores ideológicos. A civilização ocidental, filha de debates entre Sócrates e os sofistas, entre Tomás de Aquino e Averróis, entre Locke e Rousseau, agora se limita a memes, cancelamentos e gritos histéricos de "fascista!" ou "comunista!" lançados com a profundidade de uma piscina inflável. Não há centro, não há conciliação, não há a mínima tentativa de entendimento. O diálogo foi substituído por threads no X (antigo Twitter) e vídeos no TikTok com narração de voz robótica e trilha de funk triste.

É claro que essa polarização não surge do nada. Ela é a espuma de uma maré profunda de niilismo. O homem ocidental já não sabe quem é. Por isso, agarra-se a ideologias como náufrago a destroços. Direita e esquerda já não significam mais princípios políticos; são tribos, estandartes, identidades prêt-à-porter. O sujeito veste a ideologia como quem escolhe um filtro para selfies: o importante é performar. De um lado, temos guerreiros do progresso dispostos a cancelar Shakespeare por machismo estrutural. Do outro, defensores de valores “tradicionais” que não leem um clássico desde a última edição de "O Pequeno Príncipe". Ambos gritam por um mundo melhor, mas querem apenas vencer a discussão.

Enquanto isso, a cultura – essa grande usina de sentido – vira piada de mau gosto. Arte virou performance sem beleza, literatura virou militância panfletária e música, com raras exceções, é repetição de batidas, gemidos e egos inflados. Se, no século XIX, a cultura ocidental produziu sinfonias de Brahms, quadros de Turner e romances de Dostoiévski, hoje ela nos brinda com NFTs de macacos tristes e letras que repetem “toma, toma, toma” em loop. O espírito do tempo não é mais trágico ou sublime: é kitsch, é meme, é mercadoria.

Mas não sejamos ingênuos – a decadência não está apenas do lado de fora. Ela se infiltra no coração do indivíduo. O cidadão ocidental moderno vive entre telas, ecoando slogans que não entende e lutando batalhas que não são suas. Ele não crê em Deus, mas acredita em energias. Não confia na política, mas idolatra influencers. Não tem tempo para refletir, mas passa horas cultivando uma identidade digital que desmorona ao primeiro unfollow. Vive em burnout espiritual, tentando preencher o vazio com cursos de mindfulness e pílulas de dopamina.

E no meio desse carnaval esotérico-polarizado, esquecemo-nos do que realmente importa. Esquecemos que a civilização ocidental foi forjada por uma tensão criativa entre fé e razão, liberdade e responsabilidade, indivíduo e comunidade. Esquecemos que a verdadeira força do Ocidente estava na sua capacidade de duvidar sem destruir, de crer sem fanatismo, de discordar sem se odiar. Agora, nadamos em um mar de relativismo místico e fanatismo político. E não sabemos nadar.

Talvez ainda haja tempo. Talvez ainda seja possível acender uma vela contra essa escuridão holográfica. Mas será preciso coragem – não a coragem de gritar mais alto, e sim a de calar, ouvir, estudar. A de sair do transe astrológico, desligar a máquina tribal da política e voltar a olhar para cima, como os antigos – não para os astros, mas para a Verdade. Porque só ela – e não as "vibrações" ou os "textões" – poderá nos livrar do colapso elegante e fluorescente que chamamos de pós-modernidade.

E enquanto isso… eles continuam marchando. Com fones no ouvido, olhos no feed e o coração num GPS quebrado que insiste em guiá-los para lugar nenhum.

O Sol em Jequiezinho e a Semente Proibida

 

O Sol em Jequiezinho e a Semente Proibida

O verão em Jequié era um bicho que se arrastava, quente e pegajoso, pelas ruas empoeiradas do Jequiezinho. Em 1987, o sol de meio-dia castigava a Rua da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, fazendo o calçamento suar e o ar vibrar como um calor invisível. As casas dormiam, ou fingiam, sob a implacável luminosidade, e o som, ah, o som… O axé começava a ensaiar seus primeiros passos descompromissados nas rádios, um batuque alegre e desinibido que teimava em contrastar com a modorra da tarde.

Foi nesse forno que Pedro Correia, com seus dezesseis anos e a magreza de quem parece feito de sombra e nervos, passava seus dias. Negro, de fala mansa e olhos que liam mais do que viam, Pedro era um presbiteriano convicto, avesso aos excessos do mundo e dado à quietude dos livros. A Bíblia, claro, era sua companheira mais assídua, e dela extraía a retidão que tentava imprimir à sua vida. A timidez, no entanto, era um véu que o cobria, tornando cada palavra um esforço, cada encontro um pequeno tormento.

E foi assim que a outra ponta dessa história, Márcia Garcia, surgiu em sua órbita. Trinta e cinco anos, católica, casada com o Eduardo e mãe de dois filhos. Márcia era uma flor exausta sob o sol causticante de sua própria existência. A insatisfação, uma erva daninha invisível, crescia em cada fresta de seu cotidiano, e o casamento parecia mais um hábito cansado do que uma escolha. Seus olhos, antes brilhantes, guardavam agora uma espécie de névoa, um desassossego silencioso que Pedro, em sua observação atenta e quase imperceptível, notou de pronto.

A amizade entre eles começou de mansinho, como a brisa que teima em surgir no fim da tarde. Pedro, com seus livros e sua quietude, era um porto seguro para os desabafos velados de Márcia. Ela falava da monotonia, do calor que não passava, dos filhos que cresciam e do marido que parecia cada vez mais distante. Pedro ouvia, pontuando com frases curtas, reflexões retiradas das páginas que lia, ou apenas um silêncio compreensivo. Nos encontros na calçada, na sombra tênue da Igreja, enquanto as batucadas do axé invadiam as janelas abertas, algo de indefinível começou a brotar entre eles. Não era algo dito, mas sentido. Um olhar que demorava mais do que o necessário, um toque casual na entrega de um livro, a maneira como a voz de Márcia se suavizava ao falar com ele, a forma como o coração de Pedro, tão acostumado à quietude, acelerava em sua presença.

O ar quente de Jequié, que parecia derreter o asfalto, tornava-se o pano de fundo para a efervescência de emoções proibidas. Aquele verão escaldante não era apenas um fenômeno climático; era também um estado de alma. Márcia sentia um tremor, um despertar há muito adormecido, na presença daquele jovem de olhos limpos e alma antiga. E Pedro, em sua pureza e sua inexperiência, sentia o magnetismo daquela mulher que desnudava sua alma para ele, uma revelação que o assustava e o atraía na mesma medida. Não houve beijos roubados, nem toques impetuosos. A paixão, ali, era um perfume no ar, uma canção não cantada, um desejo que se manifestava nos olhares demorados, nos sorrisos cúmplices, na intensidade da presença um do outro. A beleza dessa atração estava na sua implícita manifestação, no que não era dito, mas gritava no silêncio e na proximidade. Era a flor de uma mulher de trinta e poucos anos, com toda a complexidade e os desencantos da vida, encontrando a pureza e a intensidade de um jovem de dezessete, na plenitude de seus primeiros sentimentos.


E, no fim das contas, a vida. Aquela mesma vida que, para Sartre, é uma condenação à liberdade, uma existência vazia de sentido intrínseco, onde somos forçados a criar nossos próprios valores e significados. O homem é o que ele faz de si, sem Deus, sem essência predeterminada. É o vazio de ser, a náusea da liberdade, que contrasta tão violentamente com o ensinamento bíblico da pureza sexual e do amor responsável, onde o significado é dado, e a responsabilidade reside na obediência a um propósito divino. Pedro, em sua fé presbiteriana, buscava a retidão e a verdade nas escrituras, enquanto Márcia, em sua inquietude, experimentava o vazio existencial de uma vida que parecia desprovida de propósito maior. A amizade perigosa, então, tornou-se o campo de batalha entre a fé e o vazio, entre o desejo e o dever, deixando para trás apenas a incerteza e a amarga beleza de um amor proibido sob o sol inclemente de Jequié.

sábado, 12 de julho de 2025

Verões emocionais

 Verões Emocionais

O sol de Jequié em 1986 parecia ter uma intensidade particular naquele ano. Talvez fosse a atmosfera carregada de expectativas do último ano do ginasial, ou talvez fosse simplesmente o calor baiano que teimava em se prolongar pelos meses. Para Débora Mara, no entanto, a intensidade do sol era apenas um reflexo do calor que sentia no peito sempre que Carlos César estava por perto.

Eles eram a personificação daquele tipo de amor juvenil que floresce nos corredores da escola, nos intervalos barulhentos e nas caminhadas despretensiosas para casa. Ambos com quinze anos, Débora e Carlos César cursavam o nono ano, a antiga oitava série, na Escola Polivalente de Jequié. A Polivalente, com seus blocos de salas de aula dispostos em um pátio central onde uma mangueira frondosa oferecia sombra bem-vinda, era o palco principal de seus primeiros sonhos e descobertas.

Carlos César, com seus cabelos castanhos sempre um pouco desalinhados e um sorriso que fazia os olhos de Débora brilharem, era o centro do seu universo. Ele era gentil, atencioso e compartilhava com ela não apenas os cadernos de anotações e as preocupações com as provas de português da Dona Amélia, mas também a fé que ambos nutriam na Igreja Presbiteriana Central de Jequié.

Débora, por sua vez, era uma menina de sorriso fácil e olhar curioso. Seus cabelos longos e escuros geralmente estavam presos em um rabo de cavalo, e seus olhos castanhos observavam o mundo com uma mistura de inocência e uma crescente dose de desejo pelo futuro. Ela amava as aulas de história e se perdia nas páginas dos livros que pegava emprestados na pequena biblioteca da escola.

Naquela época, o Brasil vivia sob a égide do Plano Cruzado, uma tentativa governamental de conter a inflação galopante que assolava o país. As mudanças nos preços e as constantes discussões sobre o sucesso ou fracasso do plano eram um pano de fundo constante nas conversas dos adultos, mas para Débora e Carlos César, o foco estava muito mais no futuro que acenava além dos portões da Polivalente.

Eles sonhavam com um futuro a dois, construído sobre os alicerces do amor e da fé que compartilhavam. Falavam em casamento, em ter uma casa com um jardim florido e crianças correndo pela varanda. Débora imaginava-se ensinando os filhos a ler as mesmas histórias que ela tanto amava, enquanto Carlos César se via como um pai carinhoso e provedor, talvez trabalhando na pequena oficina de seu pai ou quem sabe, aventurando-se em algum negócio próprio.

Os cultos de domingo na igreja eram momentos especiais para eles. Sentados lado a lado nos bancos de madeira, cantavam os hinos com fervor, ouviam atentamente a pregação do Pastor Samuel e trocavam olhares cúmplices durante as orações. A igreja era mais do que um templo religioso; era a comunidade que os acolhia, que celebrava seus pequenos triunfos e os confortava em seus momentos de dúvida. Era ali que aprendiam sobre os princípios que norteavam suas vidas, sobre a importância da honestidade, da bondade e, principalmente, da pureza sexual antes do casamento.

Essa era a pedra angular do dilema que começava a se apresentar com mais intensidade em seus corações adolescentes. A paixão que sentiam um pelo outro era avassaladora, uma força poderosa que parecia desafiar as barreiras da razão e da doutrina. Os beijos roubados após a aula, os abraços apertados nos encontros no coreto da praça, o simples toque de mãos durante o culto – tudo isso acendia neles uma chama intensa, um desejo que ia além da simples afeição.

As conversas sobre o futuro inevitavelmente esbarravam nesse ponto delicado. Em seus passeios pela Avenida Getúlio Vargas, sorvetes derretendo sob o sol escaldante, eles falavam sobre tudo: a faculdade que talvez fizessem em Salvador, o tipo de casa que construiriam, até mesmo os nomes de seus futuros filhos. Mas quando o assunto se aproximava da intimidade física, um silêncio hesitante pairava entre eles.

“Carlos…”, Débora começava, a voz um sussurro hesitante enquanto ele segurava sua mão com carinho. “Nós… nós vamos esperar, não é?”

Carlos César apertava sua mão, o olhar um pouco distante, lutando contra os próprios sentimentos. “Claro, Débora. Nós sabemos o que é certo. O Pastor Samuel sempre fala sobre a importância de guardar o nosso corpo para o casamento. É o que a Bíblia ensina.”

Mas a teoria, por mais sólida que parecesse, começava a ruir diante da força da prática. Os hormônios da adolescência fervilhavam em suas veias, e a proximidade física, os olhares apaixonados, os toques carregados de eletricidade criavam uma tensão quase insuportável.

Nos encontros à luz da lua no quintal da casa de Débora, enquanto os grilos cantavam sua serenata noturna e o aroma das flores do jardim pairava no ar, era cada vez mais difícil manter a distância que a doutrina presbiteriana impunha. Os beijos se tornavam mais longos, os abraços mais apertados, e as mãos, antes tímidas, começavam a explorar territórios antes proibidos.

A culpa era um fantasma constante em suas mentes. Após cada momento de maior intimidade, vinha a lembrança das palavras do pastor, dos versículos bíblicos que falavam sobre a pureza e a santidade do corpo. Débora se sentia dividida entre o amor profundo que sentia por Carlos César e o medo de desapontar a Deus e seus pais, que tanto prezavam pelos ensinamentos da igreja.

Carlos César também enfrentava essa batalha interna. A masculinidade florescente o impelia a expressar seu amor de forma física, mas a consciência dos valores que lhe foram ensinados o freava. Ele se sentia preso em um fogo cruzado entre o desejo e a convicção.

Em uma tarde quente de sábado, Débora e Carlos César decidiram ir à cachoeira do Cravinho, um lugar escondido em meio à vegetação exuberante, a alguns quilômetros de Jequié. Era um refúgio de paz onde podiam se sentir mais próximos da natureza e, talvez, mais livres das pressões da cidade.

A caminhada até a cachoeira foi feita em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos. Ao chegarem, a visão da água cristalina caindo em uma piscina natural cercada por pedras e árvores os maravilhou. O som da água era um bálsamo para a alma, e a brisa fresca que emanava da cachoeira aliviava o calor do dia.

Eles encontraram um lugar isolado em uma rocha plana, onde se sentaram lado a lado, observando o movimento da água. O silêncio entre eles era diferente daquele hesitante dos últimos encontros; era um silêncio carregado de uma intensidade palpável.

Carlos César pegou a mão de Débora e a beijou suavemente. Ela se virou para ele, os olhos marejados de uma emoção que mal conseguia conter.

“Débora… eu te amo tanto”, ele sussurrou, a voz embargada.

“Eu também te amo, Carlos”, ela respondeu, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Naquele momento, sob o sol que filtrava pelas folhas das árvores e ao som da água que caía, a paixão falou mais alto. Os sentimentos que eles vinham reprimindo com tanto esforço romperam as barreiras da culpa e do medo. Em um abraço apertado, seguido de um beijo longo e apaixonado, eles se entregaram àquele momento, àquele verão de emoções intensas.

O tempo pareceu parar enquanto eles exploravam as profundezas de seu amor juvenil. As carícias se tornaram mais ousadas, os sussurros mais íntimos, e a promessa de um futuro juntos se misturava à urgência do presente. Naquele instante, a doutrina da igreja, os ensinamentos dos pais, tudo pareceu distante, quase irreal. Havia apenas eles dois, o calor de seus corpos e a intensidade de seus sentimentos.

No entanto, a euforia daquele momento não durou para sempre. Quando o sol começou a se pôr e a sombra das árvores se alongou sobre a cachoeira, a realidade começou a retornar, como uma onda fria quebrando sobre seus corpos aquecidos.

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de uma mistura de satisfação e angústia. Eles sabiam que haviam cruzado uma linha, que haviam feito algo que ia contra tudo o que lhes fora ensinado. A culpa, antes um fantasma distante, agora pairava sobre eles como uma nuvem escura.

No caminho de volta para Jequié, a atmosfera entre eles era tensa. As palavras eram poucas e hesitantes, e os olhares evitavam se encontrar. A beleza da cachoeira e a intensidade do momento compartilhado pareciam agora distantes, quase como um sonho fugaz.

Nos dias que se seguiram, a culpa se intensificou. Débora se sentia perturbada, com a consciência pesada. As palavras do pastor ecoavam em sua mente, e ela se perguntava se havia desapontado a Deus de forma irreparável. Carlos César também estava aflito, dividido entre a alegria de ter se entregado ao seu amor e o remorso por ter transgredido os princípios de sua fé.

Eles tentaram conversar sobre o que havia acontecido, mas as palavras pareciam insuficientes para expressar a complexidade de seus sentimentos. Havia o medo do julgamento da igreja, a decepção de seus pais e a incerteza sobre o futuro de seu relacionamento.

O verão de 1986, que havia começado com tanta promessa e paixão, chegava ao fim com um misto de alegria e remorso. O último ano do ginasial se encerrou, e com ele, a intensidade daquele amor juvenil que floresceu nos corredores da Polivalente.

Carlos César e Débora Mara seguiram caminhos diferentes após a formatura. As pressões da vida, as escolhas individuais e talvez a própria culpa daquele verão na cachoeira do Cravinho os afastaram gradualmente. Os sonhos de casamento, filhos e um lar se dissiparam como a fumaça.

Hoje, muitos anos depois, sentada em minha cadeira de balanço na varanda, observo o sol se pôr no horizonte. As rugas ao redor dos meus olhos são testemunhas do tempo que passou, das alegrias e tristezas que vivi. Lembro-me daquele verão de 1986 em Jequié, do Plano Cruzado e da intensidade do meu primeiro amor por Carlos César.

As memórias da Escola Polivalente, dos cultos na igreja, dos passeios pela Avenida Getúlio Vargas e, principalmente, daquele dia na cachoeira do Cravinho ainda estão vívidas em minha mente. A paixão, a culpa, a incerteza do futuro – tudo volta com uma clareza surpreendente.

Carlos César… por onde você estará? Casou-se? Teve filhos? Construiu o lar com que tanto sonhávamos?

Naquela época, éramos apenas dois adolescentes apaixonados, tentando decifrar os mistérios do amor e da fé em meio ao turbilhão de hormônios e expectativas. Cometemos erros, certamente. As escolhas que fizemos naquele verão tiveram consequências que se estenderam por anos.

Mas, apesar de tudo, guardo no meu coração a lembrança daquele amor puro e intenso, daquele verão de emoções à flor da pele. Foi um tempo de descobertas, de sonhos e de primeiras vezes. Um tempo que, apesar da culpa e do remorso, moldou quem eu sou hoje.

Sim, aquele foi um verão inesquecível, um dos meus verões emocionais. E mesmo com as cicatrizes que o tempo deixou, ainda consigo sentir o calor daquele sol de Jequié e 

a intensidade daquele primeiro amor.

LEVÍTICO 4: O Sacrifício pelo Pecado: A Expiação para a Culpa Oculta e a Ignorância

  B om dia, amado irmão em Cristo. É com um senso de profunda reverência que avançamos para o quarto capítulo desta exposição. Se nos primei...