A grande marcha para lugar nenhum
por Paulo Oliveira
Eles marcham. Oh, como marcham! Os filhos da civilização ocidental, eretos em seus tênis de solado grosso e indignação líquida, desfilam pelas avenidas da História como se fossem protagonistas de um espetáculo cósmico. Eles gritam por liberdade enquanto se acorrentam ao algoritmo. Celebram a razão ao som de mantras lunares e se perdem nos labirintos de luzes psicodélicas, grafites ritualísticos e certezas de silicone. Estamos assistindo à decadência ocidental não como tragédia, mas como espetáculo de variedades – uma mistura de circo astrológico, polarização patológica e fast food espiritual. A derrocada é pop, colorida, viral. E ninguém quer sair do palco.
Comecemos pelo palco esotérico, onde se ergue um novo panteão para substituir os deuses mortos da fé racional. Não mais Atenas ou Jerusalém, mas Ayahuasca e astrologia de aplicativo. Não mais Santo Agostinho ou Descartes, mas gurus de Instagram com turbantes comprados na Amazon e olhos marejados de autoajuda. O cidadão médio da Nova Roma – que agora se parece mais com um café orgânico do Brooklyn do que com qualquer capital imperial – rejeita a metafísica clássica e abraça uma ontologia líquida, onde o “eu” se dissolve em energias, cristais e vibrações de quinta dimensão. O problema é que esse "eu" pós-moderno, saturado de signos, não encontra repouso nem redenção, apenas curtidas e likes. E se a verdade for relativa, tudo passa a ser permitido – inclusive a desintegração do próprio Ocidente.
Mas não se pense que essa nova espiritualidade brotou de um vácuo. Oh, não! Ela floresce como erva daninha sobre os escombros da razão iluminista. A ciência, antes farol, tornou-se burocracia. A universidade, outrora templo do saber, virou mercado de diplomas e trincheira ideológica. O saber técnico sobrevive, claro – ainda fabricamos foguetes, drones e algoritmos que nos espionam com eficiência quase divina – mas o saber sobre o sentido, sobre a beleza, sobre o bem, esse... foi jogado no lixo reciclável da cultura pop. E enquanto cientistas engolem grilos em nome da sustentabilidade, o cidadão comum procura consolo nos mapas astrais.
E a política? Ah, a política... a arena gloriosa onde atenienses discutiam o destino da pólis transformou-se num circo polarizado, um reality show de gladiadores ideológicos. A civilização ocidental, filha de debates entre Sócrates e os sofistas, entre Tomás de Aquino e Averróis, entre Locke e Rousseau, agora se limita a memes, cancelamentos e gritos histéricos de "fascista!" ou "comunista!" lançados com a profundidade de uma piscina inflável. Não há centro, não há conciliação, não há a mínima tentativa de entendimento. O diálogo foi substituído por threads no X (antigo Twitter) e vídeos no TikTok com narração de voz robótica e trilha de funk triste.
É claro que essa polarização não surge do nada. Ela é a espuma de uma maré profunda de niilismo. O homem ocidental já não sabe quem é. Por isso, agarra-se a ideologias como náufrago a destroços. Direita e esquerda já não significam mais princípios políticos; são tribos, estandartes, identidades prêt-à-porter. O sujeito veste a ideologia como quem escolhe um filtro para selfies: o importante é performar. De um lado, temos guerreiros do progresso dispostos a cancelar Shakespeare por machismo estrutural. Do outro, defensores de valores “tradicionais” que não leem um clássico desde a última edição de "O Pequeno Príncipe". Ambos gritam por um mundo melhor, mas querem apenas vencer a discussão.
Enquanto isso, a cultura – essa grande usina de sentido – vira piada de mau gosto. Arte virou performance sem beleza, literatura virou militância panfletária e música, com raras exceções, é repetição de batidas, gemidos e egos inflados. Se, no século XIX, a cultura ocidental produziu sinfonias de Brahms, quadros de Turner e romances de Dostoiévski, hoje ela nos brinda com NFTs de macacos tristes e letras que repetem “toma, toma, toma” em loop. O espírito do tempo não é mais trágico ou sublime: é kitsch, é meme, é mercadoria.
Mas não sejamos ingênuos – a decadência não está apenas do lado de fora. Ela se infiltra no coração do indivíduo. O cidadão ocidental moderno vive entre telas, ecoando slogans que não entende e lutando batalhas que não são suas. Ele não crê em Deus, mas acredita em energias. Não confia na política, mas idolatra influencers. Não tem tempo para refletir, mas passa horas cultivando uma identidade digital que desmorona ao primeiro unfollow. Vive em burnout espiritual, tentando preencher o vazio com cursos de mindfulness e pílulas de dopamina.
E no meio desse carnaval esotérico-polarizado, esquecemo-nos do que realmente importa. Esquecemos que a civilização ocidental foi forjada por uma tensão criativa entre fé e razão, liberdade e responsabilidade, indivíduo e comunidade. Esquecemos que a verdadeira força do Ocidente estava na sua capacidade de duvidar sem destruir, de crer sem fanatismo, de discordar sem se odiar. Agora, nadamos em um mar de relativismo místico e fanatismo político. E não sabemos nadar.
Talvez ainda haja tempo. Talvez ainda seja possível acender uma vela contra essa escuridão holográfica. Mas será preciso coragem – não a coragem de gritar mais alto, e sim a de calar, ouvir, estudar. A de sair do transe astrológico, desligar a máquina tribal da política e voltar a olhar para cima, como os antigos – não para os astros, mas para a Verdade. Porque só ela – e não as "vibrações" ou os "textões" – poderá nos livrar do colapso elegante e fluorescente que chamamos de pós-modernidade.
E enquanto isso… eles continuam marchando. Com fones no ouvido, olhos no feed e o coração num GPS quebrado que insiste em guiá-los para lugar nenhum.