O Sol em Jequiezinho e a Semente Proibida
O verão em Jequié era um bicho que se arrastava, quente e pegajoso, pelas ruas empoeiradas do Jequiezinho. Em 1987, o sol de meio-dia castigava a Rua da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, fazendo o calçamento suar e o ar vibrar como um calor invisível. As casas dormiam, ou fingiam, sob a implacável luminosidade, e o som, ah, o som… O axé começava a ensaiar seus primeiros passos descompromissados nas rádios, um batuque alegre e desinibido que teimava em contrastar com a modorra da tarde.
Foi nesse forno que Pedro Correia, com seus dezesseis anos e a magreza de quem parece feito de sombra e nervos, passava seus dias. Negro, de fala mansa e olhos que liam mais do que viam, Pedro era um presbiteriano convicto, avesso aos excessos do mundo e dado à quietude dos livros. A Bíblia, claro, era sua companheira mais assídua, e dela extraía a retidão que tentava imprimir à sua vida. A timidez, no entanto, era um véu que o cobria, tornando cada palavra um esforço, cada encontro um pequeno tormento.
E foi assim que a outra ponta dessa história, Márcia Garcia, surgiu em sua órbita. Trinta e cinco anos, católica, casada com o Eduardo e mãe de dois filhos. Márcia era uma flor exausta sob o sol causticante de sua própria existência. A insatisfação, uma erva daninha invisível, crescia em cada fresta de seu cotidiano, e o casamento parecia mais um hábito cansado do que uma escolha. Seus olhos, antes brilhantes, guardavam agora uma espécie de névoa, um desassossego silencioso que Pedro, em sua observação atenta e quase imperceptível, notou de pronto.
A amizade entre eles começou de mansinho, como a brisa que teima em surgir no fim da tarde. Pedro, com seus livros e sua quietude, era um porto seguro para os desabafos velados de Márcia. Ela falava da monotonia, do calor que não passava, dos filhos que cresciam e do marido que parecia cada vez mais distante. Pedro ouvia, pontuando com frases curtas, reflexões retiradas das páginas que lia, ou apenas um silêncio compreensivo. Nos encontros na calçada, na sombra tênue da Igreja, enquanto as batucadas do axé invadiam as janelas abertas, algo de indefinível começou a brotar entre eles. Não era algo dito, mas sentido. Um olhar que demorava mais do que o necessário, um toque casual na entrega de um livro, a maneira como a voz de Márcia se suavizava ao falar com ele, a forma como o coração de Pedro, tão acostumado à quietude, acelerava em sua presença.
O ar quente de Jequié, que parecia derreter o asfalto, tornava-se o pano de fundo para a efervescência de emoções proibidas. Aquele verão escaldante não era apenas um fenômeno climático; era também um estado de alma. Márcia sentia um tremor, um despertar há muito adormecido, na presença daquele jovem de olhos limpos e alma antiga. E Pedro, em sua pureza e sua inexperiência, sentia o magnetismo daquela mulher que desnudava sua alma para ele, uma revelação que o assustava e o atraía na mesma medida. Não houve beijos roubados, nem toques impetuosos. A paixão, ali, era um perfume no ar, uma canção não cantada, um desejo que se manifestava nos olhares demorados, nos sorrisos cúmplices, na intensidade da presença um do outro. A beleza dessa atração estava na sua implícita manifestação, no que não era dito, mas gritava no silêncio e na proximidade. Era a flor de uma mulher de trinta e poucos anos, com toda a complexidade e os desencantos da vida, encontrando a pureza e a intensidade de um jovem de dezessete, na plenitude de seus primeiros sentimentos.
E, no fim das contas, a vida. Aquela mesma vida que, para Sartre, é uma condenação à liberdade, uma existência vazia de sentido intrínseco, onde somos forçados a criar nossos próprios valores e significados. O homem é o que ele faz de si, sem Deus, sem essência predeterminada. É o vazio de ser, a náusea da liberdade, que contrasta tão violentamente com o ensinamento bíblico da pureza sexual e do amor responsável, onde o significado é dado, e a responsabilidade reside na obediência a um propósito divino. Pedro, em sua fé presbiteriana, buscava a retidão e a verdade nas escrituras, enquanto Márcia, em sua inquietude, experimentava o vazio existencial de uma vida que parecia desprovida de propósito maior. A amizade perigosa, então, tornou-se o campo de batalha entre a fé e o vazio, entre o desejo e o dever, deixando para trás apenas a incerteza e a amarga beleza de um amor proibido sob o sol inclemente de Jequié.
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