Este blog vai ser meio que autobiográfico, vou mostrar minha trajetória de vida até aqui. Falarei da minha fé e o quanto aprendi na caminhada cristã. As dificuldades e alegrias enfrentadas em minha vida. Farei algumas reflexões e levantarei alguns questionamentos. Nunca esquecerei o conselho que recebi de um dos professores do meu Curso de letras: nunca devemos nos referir a pessoas com esquizofrenia como “esquizofrênicas”, disse ele, porque isso as desumaniza, pois parece reduzi-las ao seu transtorno. O conselho fez eco à minha crença cristã de que as pessoas com esquizofrenia são feitas à imagem de Deus.
Os rótulos, porém, são ainda mais poderosos no mundo de hoje. Para muitos, eles servem como marcadores identitários em uma paisagem política e cultural cada vez mais fluida. Daniel Bowman Jr., poeta e professor de inglês da Taylor University, ilustra essa dinâmica em sua obra On the Spectrum: Autism , Faith , and the Gifts of Neurodiversity [Sobre o espectro: autismo, fé e as dádivas da neurodiversidade]. Esse fascinante e comovente livro de “memória em ensaios”, escrito por um evangélico incomumente reflexivo e transparente, visa reformular nossa maneira de pensar sobre o autismo, sugerindo novos rótulos para descrevê-lo.
Bowman desafia certos estereótipos que muitas pessoas associam ao autismo, o que torna o livro extraordinariamente atraente, mesmo que possa fazer dele um porta-voz um tanto controverso da comunidade autista. No entanto, é precisamente o seu notável grau de autoconsciência que lhe permite oferecer algumas descrições impressionantes de como é ser autista.
Bowman compartilha de forma honesta sobre a ansiedade social, a “desregulamentação executiva”, a tendência de afastar os outros, os colapsos periódicos e a vergonha significativa. Esses relatos oferecem uma abertura valiosa para enxergarmos os tipos específicos de sofrimento sentidos por, ao menos, alguns daqueles que têm autismo.
Vestindo o rótulo
Os ensaios de Bowman giram em torno de alguns temas comuns. Estar no espectro autista, segundo ele argumenta, é uma forma legítima de ser humano que é tragicamente patologizada e incompreendida pela “maioria neurotípica” (por aqueles sem autismo). O livro convida os leitores a ouvir as vozes dos próprios autistas, a fim de que realmente entendam os autistas e o autismo “a partir de dentro”.
Bowman defende que a beleza, a arte e a literatura contribuem significativamente para o florescimento do ser humano, em especial quando surgem de fontes inesperadas, como os marginalizados. O livro, que exemplifica sua própria visão com palavras, experimenta diferentes gêneros textuais, inclusive algumas entrevistas e uma carta que ele escreveu a dois queridos mentores (embora, infelizmente, não tenha poemas!). Mas Bowman nos encanta com suas histórias, e estas formam a maior parte do livro.
Especialmente tocante é seu relato sobre o fato de perceber gradualmente que poderia ser autista (um diagnóstico que só foi confirmado por profissionais em 2015). Bowman sentiu um alívio palpável quando descobriu a verdade, pois esta dava sentido a padrões de sofrimento que ele havia tido ao longo da vida. Desde o diagnóstico, Bowman acolheu o autismo como parte central de sua identidade.
Acho que ele diria que isso o capacitou a ver o que há de bom em sua condição e a perceber o máximo possível do potencial que Deus lhe deu. A alegria que ele hoje irradia ao compartilhar sobre o autismo é algo contagiante, e deve encorajar outros como ele a compartilhar suas histórias pessoais.
Isso leva a uma das maiores surpresas do livro, pelo menos do meu ponto de vista: Bowman acolhe ativamente o rótulo de “autista”. Na verdade, ele até prefere usar o termo “autistas” em vez de “pessoas com autismo”, a designação mais geral (e, segundo eu pensava, mais respeitosa). Ele aprecia profundamente quando os amigos levam em consideração seu autismo, pois isso significa que eles o apoiam como autista.
Na visão de Bowman, esse tipo de reconhecimento direto contraria a forma dominante como abordamos o autismo hoje, a qual ele chama de “paradigma da patologia”. Do ponto de vista de Bowman, tendemos a enxergar as pessoas autistas através de uma lente redutora — um prisma objetivo e científico que amplia as capacidades físicas, sociais e emocionais que podem faltar aos autistas. Isso, segundo ele argumenta, reflete os preconceitos da maioria neurotípica, que vê o autismo meramente como um transtorno psicológico.
Continuarei essas reflexões nos próximos posts.
Espero que gostem.
1 Tessalonicenses 5:18 “Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus.”
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